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Rábula de cão

Fui à igreja com o meu cão, fiquei à entrada a admirar o enorme e magnífico portal, estilo gótico, de uma beleza descomunal… Ele entrou, possivelmente p´ra ir rezar, mas como não tinha pecados não precisou de se confessar.
Estranhei a sua demora, entrei para o ir espreitar, e dei com ele a dormir encostado ao altar.
Penetrei na nave alta e senti um arrepio de frio, pela imensidão do seu vazio…
O padre viu-me entrar na igreja pelo som dos meus passos, e perguntou-me se o cão era meu, respondi-lhe que sim, ele diz-me que o cão não podia ali estar; fiquei indignado pela ousadia de tamanha desfaçatez, ao qual lhe respondi que ele não tinha pecados era feito por inteiro, é apenas um animal sem comparação nem igual.

Após a nossa controvérsia, por final indaguei o padre, que isso era uma autêntica descriminação porque se o cão não podia ali estar as ovelhas também não…
Ele encolheu os ombros virou-me as costas afim de ir confessar-se sem emitir qualquer som.
O cão continuou a dormir encostado ao altar, não se incomodando da conversa que estávamos a travar… Neste plebiscito animal reinaram os ecos sem som racional.

mulherrosa1.jpgMagia

Vós mulheres, que sois criaturas encantadoras, inteligentes, provocadoras de emoções sensuais e sentem a luxúria da seda na vossa pele, mesmo sendo pequeninas sois sempre grandes demais, e deslizam com a mesma suavidade.
Vós que sabeis ver no homem, na sua maior nobre potência as suas escondidas fragilidades, e na sua prepotência num verdadeiro declínio, quando estai na vossa frente, babando em todo o seu desejo de olhos raiados pela paixão, são sempre frágeis demais, e é na vossa frente que quase não são ninguém.

Dizeis-me vós, mulheres que somos a vossa ilusão, crescente na desilusão dos vossos caprichos desejando sempre mais do que nos é pedido… exigindo!.. E dizei-los umas às outras constantemente, como se fosseis doutra condição e não se regendo às leis orgânicas do prazer. E dizeis que o homem tende o órgão na testa sempre pronto a tocar a mais rasca das melodias, só para agradar aos vossos caprichos de sedutoras desprevenidas… Dizeis-me se fôreis capazes, que farei eu quando ela se expõe toda a nu, no seu mais sensual desejo encarnado, despindo-se sensualmente, das vestes aos poucos com enorme e facilitada habilidade, provocando o fervor do sangue, que quase explode nas veias desorientadas sem saber por onde fugir, depois vislumbrando o cenário, todo aquele desejo reclamando por mim…
Numa pressa desgovernada, liberto-me das roupas para sentir a igualdade da pele, sufragado pelo mais louco desejo, e ela de seguida foge, foge a sete pés com a roupa na mão, dizendo que se tinha enganado, que ainda não está preparada, nem se dignando olhar para trás, para ver a minha triste figura… E eu, fico ali, estático, com cara de meliante mal acabado, com o sangue a querer-me explodir no rosto, ao vê-la fugir.

A masturbação não era uma condição, embora também seja um acto de amor, dizeis vós, bem sei, mas nunca me aguentei nessa resignação. Mas qual a imaginação que conseguirá alguma vez, enfrentar a realidade que me tinha acabado de fugir das mãos… Além de me tornar incómodo digerir uma paixão, não consigo fazer amor sozinho, sinto-me parvo demais quando me “venho”… Já experimentei, e considero pior do que um aborto, não gosto, e nunca gostarei de fazer amor sozinho.

Oh mulheres como vós, sois cruéis, por julgardes mal os homens apaixonados pelos seus desejos. E sabereis chorar, sempre sem o mínimo de razão. E fazerdes amor sem o mínimo pudor provocando, por vezes imensa dor na satisfação… Vós sois capazes de fingir orgasmos e nós homens, acreditamos que são reais. Parvos! Pensando que são oriundos das performances que acabámos de executar, e ficámos extenuados adormecendo em cima do vosso corpo, para sentir melhor todo esse vosso calor. E nunca entendem que é um acto de amor acabado em sexo que adormeceu na paixão.

Dizei-me mulheres inteligentes, como hei-de proceder para nunca mais acontecer, deixar fugir a mulher debaixo do meu olhar, toda nua com a sua roupa na mão, e eu ficar ali pregado ao chão, com as calças na mão, sem saber o que irei fazer provocado pelo acontecimento inacabado de tanta tensão? Com “n” ou sem ele…


PRELÚDIO

Um dia de manhã, ao acordar, hão-de acontecer coisas para as quais não estava minimamente preparado até então. Levanto-me e começo a trilhar novos caminhos sem destino nem regresso. Levo comigo todas as lembranças guardadas em recordações, afim de evitar poder vir a esquecer-me das minhas origens e morrer a saudade nesse prelúdio. E parto sozinho.
Ao retornar mais conhecedor de quem realmente era e de quem agora sou. Farei por nunca perder o sentido da vida. Aquela que conheço e sinto, e outra que ambiciono desbravar em azinhagas por onde não passou mais ninguém, porque quero lá permanecer sozinho em inexistentes homofobias. Apenas complacente num status quo de conhecimento e paz. Sem a miscelânea dos outros nem disfarces execráveis encenados onde a fusão resplandecente em mim se fundirá só no eu, renasço dentro de mim e liberto o homo sem omitir a espécie de que sou feito.
Nessa terra de ninguém, construo uma cabana junto a um rio que passa ao lado da cama, é nela que me deito no sossego de todas as noites. Aprendi que precisava dar-me ao mundo, partilha-lo, perde-lo de seguida, para depois me encontrar. E só espero que tu chegues um dia.
O céu, as montanhas à minha volta, e o crepúsculo do dia são a única companhia na minha presença. Sinto só o semblante permanecer numa metamorfose equilibrada com a natureza e o espaço dentro do meu corpo doutro amanhecer. Ser feliz não é estar permanentemente bem o tempo todo. Mas olhar para todas as coisas com maior contemplação sem nos exigir o eterno arremesso. Liberto-me do progresso e usufruo da natureza para equilibrar todos os meus sentidos. Aqueles que já possuo na noite e outros que ainda os desconheço durante o dia. Talvez aí, sinta que vivo. Olho as estrelas, medito, e seria aí que talvez também quisesse estar.
E então, um dia voltarei quando a tristeza for apenas uma miragem, e a alegria uma condição sine qua non desse oma-quisi melancólico do hemisfério da vida.